
Previsível, ainda assim inconcebível, o que se passa no Benfica. E é um Benfica ainda mais esvaziado de esperança, sem alma, desprovido de todo o inconformismo que ainda embalou as últimas eleições até se diluir por fim em duas voltas de recorde e se misturar com o betão do estádio. O clube afunda-se e parece estar tudo bem. Se ouvirmos com atenção, o som do violino mistura-se com o das ondas desde o salão. Há quem dance. Os que embarcaram na continuidade e se tornaram cúmplices não tardarão a acorrentar-se ao mastro principal, com medo de serem cuspidos como barris de rum borda fora e o «Homem ao mar!» não venha acompanhado por mãos que os traga de volta.
Está tudo bem, mesmo com a Liga a dez pontos, a Champions do ano que vem a cinco e, sobretudo, a tendência de que as distâncias aumentem, não diminuam, apertem e devolvam a fé, à falta de algo mais palpável, a Rui Costa, José Mourinho e companhia. Se «resignação» é a palavra que melhor resume o que se passa no burgo encarnado, os grande rivais podem tranquilamente dividir o grande prémio e o mal menor, o 1.º e o 2.º lugar, fazendo depender do clássico de daqui a um mês e picos, no Dragão, o tira-teimas da segunda discussão mais importante do ano. A primeira é se foi ou não penálti. Ou pontapé de canto
Claro que há muitas contas a fazer e até um passado recente de recuperações e perdas pontuais impensáveis, inclusive para Francesco Farioli, o técnico que menos tem falhado até aqui, porém, não tendo eu capacidades de adivinhação do futuro, parece de todo improvável que quem para já anda pior em tudo, a defender e a atacar, numa Liga em que se ataca mal e ainda pior se defende, vire em pouco meses duas lutas (e não apenas uma) a seu favor. É que mesmo que contratasse três ou quatro foras de série continuar-lhe-ia a faltar o essencial: em nenhum dos casos depende de si.
A crónica vitimização de José Mourinho arrancou desde cedo e a sua desculpabilização não demorou a vir do lado de uma oposição que nunca conseguiu resolver o último trunfo apresentado por Rui Costa para também ele se amarrar ao leme de um navio que há muito perdeu o rumo e entrou bem no coração da tempestade.





